sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Como nasce um escritor

Um escritor nasce de uma esfera envolvente
um desejo latente de ser o não aparente
em um universo contundente.

Um escritor nasce do amor incondicional pelas palavras, 
por conjugá-las, uni-las, separá-las, lançá-las ao vento, 
soprando rumo a um céu infinito e belo.

Um escritor nasce sob uma camada grossa de mal gosto
que poderá se tornar uma película fina, límpida, 
cristalina, rica e maravilhosa.

Um escritor nasce da vontade incontrolável de ver o sol, 
em meio a nebulosidade densa e escura.
Nasce do desejo oculto, oblíquo, obscuro, 
vasto que incendeia o mundo. 

Um escritor nasce de uma determinação em falar, dizer, contradizer.
Nasce de uma membrana, uma paixão pelos conflitos e mazelas humanas.

Um escritor nasce de uma colisão, um sopro, uma visão.
De um toque, que mais parece um choque de mil volts.

Nasce de um pensamento que rumina.
De palavras que descem em pêndulos e ficam ali a pular, balançar, provocar. Um escritor nasce de supor, esquematizar. 
De cair e levantar, sentindo na face uma brisa de mar.

Um escritor nasce de um salto solto nos sentidos, 
e na corda bamba decide entre correr ou ficar.
Nasce de uma intimidade consigo que é 
capaz de destinguir a inspiração e adestrá-la no ar.

O escritor nasce de lapidar no exercício de tentar, tentar, tentar.

Um escritor nasce de esquecer, para 
só depois lembrar, pelo gesto de se rabiscar, 
e inteiro se lambuzar, num mar de palavras se afogar. 
Pelo fato de se surpreender e calar.

O escritor nasce do ato de respirar. 

Um escritor nasce da necessidade de se envolver 
em uma toalha transparente fria ou quente. 

Um escritor nasce dos seus abismos.
Quando de suas mãos voam pássaros
e dos seus bolsos caem em estrondo 
uma emoção pavão, em constante transformação. 

Um escritor nasce separando os grãos.
Amassando suas feras.
Tirando do baú coisas novas e velhas. 

Telvana Oliveira

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